Cortar pela metade os custos de arrefecimento é o que está por trás da participação de Luciano de Vries em centros de dados submersos
Em outubro de 2025, a China concluiu a construção de um centro de dados submerso na Área Especial de Lin-gang, em Xangai, com um investimento de 1,6 mil milhões de yuans, cerca de 226 milhões de dólares. Oito meses depois, em junho de 2026, a instalação entrou em operação comercial. É nesse tipo de aposta, na infraestrutura física que sustenta a inteligência artificial e não nos modelos em si, que se encontra uma das participações do empresário neerlandês Luciano de Vries.
Um projeto de 226 milhões de dólares ao largo de Xangai
O projeto, situado a cerca de dez quilómetros da costa e a nove metros de profundidade, é uma parceria entre a HiCloud Technology e a estatal China Communications Construction. A capacidade instalada chega aos 24 megawatts, um valor modesto quando comparado com as instalações de escala gigawatt que grandes tecnológicas estão a construir em terra para sustentar os seus modelos de IA. Segundo o comité administrativo da Área Especial de Lin-gang, o projeto utiliza mais de 95 por cento de eletricidade verde, reduz o consumo de água em 100 por cento e o uso de solo em mais de 90 por cento, face a um centro de dados equivalente em terra.
A redução no consumo de energia atribuída ao projeto ronda os 22,8 por cento. Parte dessa poupança vem de uma central eólica offshore que alimenta diretamente a instalação. A outra parte vem de um princípio simples, a própria água do mar substitui grande parte dos sistemas mecânicos de arrefecimento que um centro de dados em terra normalmente precisa de manter em funcionamento constante.
A economia do arrefecimento por água do mar
O arrefecimento consome entre 30 e 40 por cento da energia total de um centro de dados convencional. Submergir os servidores na água do oceano retira essa carga do sistema mecânico e substitui-a por um processo passivo. O indicador que mede essa eficiência, o PUE, situa-se em média nos 1,56 para a indústria, com as instalações hiperescala mais avançadas a atingir valores próximos de 1,09. Cada décima de melhoria nesse número traduz-se em menos eletricidade consumida por unidade de computação entregue, e portanto em menos custo operacional ao longo da vida útil da instalação.
Esta não é a primeira tentativa de testar o conceito. A Microsoft colocou um módulo com doze racks e 864 servidores no fundo do mar junto às Ilhas Orkney, na Escócia, em 2018, e recuperou-o dois anos depois. Os servidores desse módulo submerso registaram uma taxa de falhas oito vezes inferior à do grupo de controlo equivalente em terra, um resultado que a empresa atribuiu ao ambiente selado, seco e com temperatura estável. A Microsoft nunca transformou o Project Natick numa linha de produto comercial. A China avançou onde a Microsoft parou.
Samsung aposta em plataformas flutuantes
A Samsung Heavy Industries assinou, em junho de 2026, um acordo de desenvolvimento conjunto com a Supermicro para validar servidores de IA em ambiente marinho. A empresa fechou também, na feira Posidonia 2026, acordos com a armadora grega Capital Clean Energy Carriers e com a Lloyd’s Register para um modelo de 50 megawatts com aprovação preliminar da ABS, que combina arrefecimento por água do mar com células de combustível de óxido sólido alimentadas a gás natural liquefeito. A lógica de fundo é a mesma da instalação chinesa, deslocar o centro de dados para onde o arrefecimento é gratuito e o terreno não é um constrangimento.
A divisão de tarefas no acordo revela onde está o verdadeiro desafio de engenharia. À Samsung cabe desenvolver os sistemas de posicionamento e as barreiras contra sal e humidade que uma plataforma marítima exige. À Supermicro cabe validar se o hardware de IA, já testado em centros de dados hiperescala em terra, aguenta anos de vibração, inclinação, sal e humidade num ambiente fluvial ou marinho. Essa é a pergunta que qualquer aposta neste setor precisa de responder antes de escalar, se o servidor sobrevive ao mar tão bem quanto sobrevive ao armazém.
Onde entra a aposta de Luciano de Vries
De Vries construiu e vendeu um negócio próprio em Espanha entre 2014 e 2019. Desde então, tem redirecionado capital para dois destinos, o desenvolvimento imobiliário em Portugal através da Renaitre Unipessoal, sediada em Tomar, e um portefólio de investimento anjo que já soma cerca de trinta participações. Uma startup dedicada a centros de dados submersos ocupa um lugar particular nesse portefólio. Não é uma aposta na próxima geração de modelos de linguagem, mas na infraestrutura física que qualquer geração futura desses modelos vai precisar para funcionar.
De Vries descreve a sua filosofia de investimento de forma direta: capital é uma mercadoria, convicção não é. Prefere fundadores que já provaram capacidade de execução em setores onde identificou um problema real por resolver. O tema em alta do momento importa menos do que a pessoa encarregue de executar o plano.
Um relatório da consultora de capital spectup sobre tendências de investimento anjo em 2026 descreve um arquétipo de investidor que se encaixa neste perfil, o fundador que já construiu e vendeu uma empresa e passa a investir noutras, motivado por empatia com quem está do outro lado da mesa e por convicção sobre o mercado, com um envolvimento médio e decisões relativamente rápidas. De Vries já esteve do lado do fundador antes de estar do lado do capital, e isso molda o tipo de compromisso que procura.
Essa lógica repete-se no resto do portefólio, sistemas autónomos de drones na Alemanha, dívida privada com garantias reais em Viena, terapia de luz vermelha para longevidade em parceria com a barrelsauna.nl, e participações em sistemas de inteligência artificial agenteica. Nenhuma dessas apostas segue a mesma tendência de mercado. O critério de seleção é sempre o mesmo, fundadores com histórico de execução, em nichos onde a maior parte do capital ainda hesita entrar.
O ceticismo que a tecnologia ainda enfrenta
Nem todos concordam que os centros de dados submersos resolvem, de facto, o problema que prometem resolver. Michael Barnard, analista da CleanTechnica, sublinha que a vantagem de arrefecimento não elimina questões de manutenção, cabos submarinos, ligação à rede elétrica, licenciamento ambiental e segurança. Investigadores da Universidade da Flórida demonstraram, por exemplo, que sistemas de discos rígidos submersos podem ser vulneráveis a ataques acústicos, porque o som viaja com facilidade debaixo de água e pode interferir no funcionamento dos equipamentos. Um servidor avariado num piso de um centro de dados convencional resolve-se com um técnico e uma peça sobresselente. Um servidor avariado dentro de um módulo selado no fundo do mar exige outro tipo de planeamento inteiro.
Barnard argumenta que a tecnologia provavelmente vai ocupar um nicho real, não substituir a arquitetura dominante de centros de dados em terra. Faz mais sentido em cidades costeiras densas, com terreno caro, água de arrefecimento limitada, boa infraestrutura portuária e eletricidade limpa próxima, condições que a costa industrial chinesa cumpre com folga. Para a maior parte do mundo, o centro de dados em terra continua a ser a opção mais simples de financiar, construir por fases e manter.
Uma tese construída à volta de convicção, não de hype
A aposta de Luciano de Vries em centros de dados submersos não depende de o oceano se tornar o destino padrão da computação de IA nos próximos anos. Depende de uma fatia suficiente do mercado escolher essa via em locais onde faz sentido, e de a empresa em que investiu estar entre as primeiras a resolver os problemas de engenharia que Barnard identifica. É uma aposta estreita, dentro de um portefólio construído para tolerar que nem todas as convicções se confirmem ao mesmo tempo.
